quinta-feira, 26 de abril de 2012


09.04.2012

Nota de esclarecimento do Conselho Federal de Psicologia e Sobrapa sobre exercício da acupuntura

A decisão da Sétima Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região que suspendeu a Resolução CFP 005/2002, que reconhece a acupuntura como prática complementar da atividade profissional do psicólogo foi publicada no dia 3 de abril de 2012.

Para o Conselho Federal de Psicologia e a Sociedade Brasileira de Psicologia e Acupuntura (Sobrapa) a decisão é equivocada, pois considera que a Lei nº 4.119/62, que regulamenta a profissão de psicólogo, não permite a prática da acupuntura, bem como pelo fato de que os psicólogos não estariam habilitados a efetuar diagnóstico clínico.

O acórdão proferido contraria o princípio do livre exercício profissional, estampado no art. 5º, inciso XIII da Constituição Federal de 1988.

No entendimento do CFP e da Sobrapa, não há qualquer dispositivo legal que vede a atividade desenvolvida e, como visto na análise do dispositivo constitucional, a regra é a liberdade do exercício profissional dos psicólogos (como de qualquer profissional), assistindo-lhes o direito liquido e certo de não verem-se proibidos a desempenhar atividade sem que tal vedação provenha de lei específica.

Equivoca-se, também, a decisão judicial ao considerar que a prática da acupuntura pressupõe um diagnóstico clínico. Isso porque a acupuntura é um método terapêutico milenar, parte integrante da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). A MTC repousa em bases inteiramente diferentes das da medicina ocidental, fundamentando-se nas “antigas Tradições Orientais”, particularmente na Filosofia Taoísta, logo sua base é filosófica, estruturando-se em um conceito taoísta de integridade e unidade do todo, ou seja, a unidade do organismo humano em si e a unidade maior do ser humano com a natureza, que representa a condição vital para a nossa sobrevivência. (Van Nghi, 1981; Tymowski,1986). Para a Acupuntura o ser humano é único e indivisível na sua relação com a vida e com a saúde. Portanto, não é abordado exclusivamente sob o ponto de vista do diagnóstico nosológico, mas sim sob a ótica do equilíbrio essencial entre as energias Yin e Yang (diagnóstico energético e funcional). Tem-se, pois uma perspectiva energética cuja diagnose é tomada sob três diferentes aspectos: as causas internas (psiquismo – emoções e sentimentos); as causas externas (fatores climáticos) e as causas, nem internas, nem externas (acidentes, por exemplo).  

O psicólogo certificado em acupuntura, de acordo com as leis regimentais de sua profissão adere, em sua maioria, ao Estilo de Pensamento tradicional. Esse Estilo de Pensamento visa abordar e avaliar a pessoa de maneira holística e individualizada, com foco na avaliação energética e psicológica (estudo das etiologias e das agressões internas – sentimentos e emoções).

Os estímulos nos pontos de comando pelo profissional psicólogo são realizados a partir de instrumentos como agulha de acupuntura (inseridas de 2 a 3 mm na pele), além de sementes, pressão, calor, laser, eletricidade, entre outros, conforme descrito na tabela de atividades do CBO 2002, do Ministério do Trabalho e Emprego (código2515-55 do psicólogo acupunturista). 

Diferente, portanto, o enfoque da utilização da acupuntura pelos vários profissionais da saúde (médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, farmacêuticos, entre outros). Cada um desses profissionais utiliza-se da acupuntura como recurso complementar, a partir de sua competência profissional prevista em cada Lei que regulamenta a profissão respectiva.

Assim, pode-se afirmar que a acupuntura, cuja base é filosófica e simbólica esta alicerçada em conhecimentos chamados Tradicionais e não nas ciências médicas, não é utilizada pelo psicólogo para tratamento médico - clínico, como pretende a decisão, mas sim a partir de uma avaliação psicológica - energética-funcional e voltada para o tratamento de sofrimento psíquico decorrente de um desequilíbrio energético-funcional.

Dessa forma, o Conselho Federal de Psicologia e a Sobrapa informam que recorrerão da decisão e envidarão todos os esforços para reverter, por intermédio dos recursos às instâncias superiores, a decisão proferida, mantendo assim os termos da Resolução CFP 05/2002. Assim, espera reestabelecer a segurança jurídica para que os psicólogos continuem a exercer a sua prática profissional com a utilização da acupuntura.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Viver nos domínios da natureza de Buda significa morrer a cada instante como um ser insignificante. Quando perdemos o equilíbrio morremos, mas ao mesmo tempo também nos desenvolvemos, crescemos. Tudo que vemos está mudando, perdendo o equilíbrio próprio. Tudo parece bonito porque está tudo desequilibrado, mas a base sempre está em perfeita harmonia."

(Shunryu Suzuki)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Técnicas Gerais de Estimulação e Dispersão dos Pontos de Acupuntura


Na prática de acupuntura existem muitos detalhes que passam despercebidos pelos olhos do paciente e também de muitos acupunturistas iniciantes que estão, em princípio, preocupados com informações mais gerais tais como a localização de pontos e colocação das agulhas. Uma dessas peculiaridades são as técnicas de estimulação e dispersão efetuadas nos pontos de acupuntura.
Existe uma variedade de técnicas diferentes quando se deseja incrementar a energia num canal, ponto, sistema ou região, e também quando se deseja mover, circular ou diminuir a energia. À medida que o acupunturista segue se aperfeiçoando, deve começar a estar atento a essas manipulações para incrementar o resultado de sua prática. Abaixo segue um resumo das mais conhecidas.

Vai-e-vem: após inseridas as agulhas, e sem retirar da pele, é feito um movimento de inserção-retirada (cuja extensão não deve ser mais do que 0.3-0.5 cun). Então a agulha é manipulada de uma camada mais superficial para uma mais profunda, e vice-versa, num movimento contínuo. Quando é dada ênfase no aprofundamento e se é gentil na retirada (sendo a inserção a técnica principal), implica uma estimulação. Quando se é gentil no aprofundamento e é dada ênfase na retirada (sendo a retirada a técnica principal) implica uma dispersão.
Rotação: o cabo da agulha é mantido entre o dedo indicador e o polegar, e girada. A diferença entre a estimulação e dispersão é dada pelo ângulo, velocidade e direção da rotação. De maneira geral, rotação para a esquerda (com o polegar para frente e o indicador para trás) implica uma estimulação. Rotação para direita (com o polegar para trás e o indicador para frente) implica uma dispersão.
Estimulação e dispersão por velocidade: uma inserção com velocidade lenta e uma retirada rápida da agulha implica estimulação. Uma inserção rápida e retirada lenta implica dispersão.
Técnicas segundo a direção: leva em consideração o fato de a agulha estar direcionada a favor ou contra o fluxo de energia no canal. Agulhas a favor da circulação implicam uma estimulação. Agulhas contra a circulação, uma dispersão.
Técnicas de acordo com a respiração: inserir e girar a agulha na inspiração do paciente e retirar na expiração promove dispersão. Inserir durante a expiração e retirar na inspiração promove estimulação.
Técnica nove-seis: de acordo com o I Ching (o Livro das Mutações) os números pares tem a natureza Yin, os números impares a natureza Yang. Este método é feito girando-se a agulha seis ou nove vezes nas três camadas de inserção conhecidas como Céu, Terra e Homem. Seis implica dispersão, nove implica estimulação.
Abertura e fechamento: imediatamente pressionar os pontos após a retirada da agulha promove estimulação, manter os pontos abertos implica dispersão.
Técnica harmonizadora: a agulha é manipulada suavemente e equilibradamente combinando-se vai-e-vem e rotação enquanto é inserida a uma determinada profundidade, e depois disso retirada. Utilizada para tratar problemas sem uma manifestação astênica ou estênica evidente já que não enfatiza nenhum aspecto da manipulação.

Obviamente existe a possibilidade de combinação de técnicas. Também é necessária uma avaliação da condição energética do paciente para a adaptação a cada situação que se apresenta na prática clínica. Nem todas as técnicas são indicadas para todas as pessoas. E também nem todas as técnicas são para todos os terapeutas.
A grande beleza da medicina chinesa e da acupuntura consiste na possibilidade de seguir a intuição, perceber o fluxo das circunstâncias que se apresentam a cada momento entre paciente e terapeuta, não se adaptar a protocolos pré-estabelecidos e saber usar com liberdade o conhecimento acumulado ao longo de muitos anos. Isso é praticar a acupuntura enquanto arte.
Para saber mais consulte: Diagrams of acupuncture manipulations. Autores e tradutores: Liu Yan e Li Zhaoguo Wang Jing. Shanghai Scientific & Technical Publishers.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mantendo os olhos abertos

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"The most beautiful thing we can experience is the mysterious. It is the source of all true art and all science. He to whom this emotion is a stranger, who can no longer pause to wonder and stand rapt in awe, is as good as death: his eyes are closed."
(Alfred Einstein)

(A mais bela coisa que podemos experimentar é o mistério. Essa é a fonte de toda arte e ciência verdadeira. Aquele para quem essa emoção é estranha, que não mais pode parar para perguntar-se e pegar-se absorto em reverência, está como que morto: seus olhos estão fechados.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Curiosidades históricas sobre a medicina chinesa

É difícil estudar cronologicamente a história da Medicina Chinesa. Em primeiro lugar devido à vasta dimensão do território chinês, e ao fato de que sua unificação política não foi permanente. A China antiga era formada por vários reinos, e mesmo depois da sua relativa unificação algumas dinastias se sobrepuseram controlando uma parte do território, o que complica a análise cronológica. Além disso, há uma diversidade de etnias, de dialetos, de costumes, e de climas segundo as regiões.
Se não bastasse este problema, temos que levar em consideração que o estudo da Medicina Chinesa abarca um espaço de tempo excepcionalmente longo. É considerada uma das medicinas mais antigas do mundo, de tal forma que determinadas teorias são tão antigas que se recorre a lendas para atribuir-lhes uma origem. E essas teorias ainda seguem sendo os conceitos de base para a compreensão desta disciplina.

Uma ciência revelada
O fato de que a investigação moderna possa, com resultados fidedignos, comprovar teorias ou temas complexos proferidos há mais de vinte séculos segue sendo hoje em dia causa de espanto para todos aqueles que tem avançado no conhecimento da Medicina Chinesa. A assombrosa mistura de complexidade e de coerência faz com que estudiosos cogitem hoje a hipótese de uma origem por “insight” ou por “inspiração”.
Um grande número de especialistas admite ser difícil compreender como puderam ser descobertos certos aspectos sutis da medicina chinesa sem que seus inventores tivessem tido acesso a estados alterados de percepção do mundo e do ser humano, estados estes que nos ultrapassam.
É evidente que nos encontramos aqui num terreno escorregadio que nos exige uma certa prudência, no entanto segue sendo evidente que a medicina chinesa é uma disciplina tradicional de fundamentos essencialmente espirituais.

Conhecimento sutil
Textos antigos do Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Huang Di Nei Jing, escrito entre o século V a.C. e VII d.C) já nos apresentam a Medicina Chinesa como uma ciência “revelada”, cujo saber veio a se degradar progressivamente ao longo dos anos. Isso se opõe claramente ao conceito de progresso permanente próprio das ciências experimentais.
É muito provável que homens inspirados, depois de haver alcançado uma realização pessoal acima do ordinário, tenham impulsionado a humanidade dentro dos diferentes ramos do conhecimento. Numerosas tradições estão impregnadas destas lendas.
Apesar disso, não deve-se deduzir que a Medicina Chinesa tenha aparecido espontaneamente com toda a sua perfeição em um determinado momento da história na mente de um praticante ou um ser realizado. É certo que ela foi construída progressivamente através dos séculos, enriquecendo-se com experiências empíricas e afinando-se continuamente no plano teórico.
Deste modo, a Medicina Chinesa não é somente produto de um saber científico. Seu êxito depende mais das qualidades pessoais e da sutileza dos práticos, cujo desenvolvimento pode por vezes ser até limitado pela alta tecnologia. É necessário desenvolver atenção, sensibilidade, intuição e visão.

Para saber mais, leia: MARIÉ, Eric. Compendio de Medicina China: fundamentos, teoria y práctica. Ed. EDAF.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A grande tonificação da energia essencial


Nas teorias tradicionais chinesas o homem é considerado um microcosmo inserido no macrocosmo, e de nenhuma forma é visto como separado, estando submetido às leis gerais de interdependência de tudo o que existe entre o Céu e a Terra.
Assim, ele é influenciado por diversos fatores: fatores climáticos, fatores sociais e de relacionamento, fatores constitucionais e dietéticos. Mas mais do que isso, e de forma insuspeitada, ele é influenciado pelos movimentos cósmicos do sol, da lua e das estrelas, pelos ritmos das estações do ano, por movimentos geológicos, etc.
Os antigos mestres chineses conheciam e previam estes movimentos e as possíveis interferências sobre o ser humano, e elaboravam diversos sistemas de estudo e adaptação do homem aos fatores macrocósmicos.

Fluir sem esforço
A adaptação do organismo às diferentes estações de um ano, com seu clima específico, foi algo bastante enfatizado pelos orientais. Segundo eles, cada estação possui uma energia predominante (frio, calor, vento, umidade ou secura) e um movimento próprio, e o homem deve adaptar seu comportamento e suas atividades com o objetivo de seguir as leis universais.
Ao observarmos os outros seres e o ambiente, percebemos essa adaptação: os ursos dormem no inverno, as flores só vem na primavera, e as frutas amadurecem no verão. O homem moderno negligencia a passagem do tempo, e por isso sofre. Ao não observar a demanda de cada período, adoece.
Contrariar a exigência de cada estação do ano levaria a um gasto inútil de energia, o que apenas serviria para exaurir as forças internas. Seria preferível, segundo os sábios, “conhecer os ritmos das marés”, para então poder fluir sem esforço e não ficar nadando contra a corrente. Só assim se terá sucesso. Para ajudar um pouco nessa adaptação uma técnica antiga que pode até hoje ser realizada é a Grande Tonificação.

A Grande Tonificação
A Grande Tonificação é uma técnica preventiva utilizada em acupuntura. Trata-se da seleção de um grupo específico de pontos que têm o objetivo de fortalecer o organismo internamente e protegê-lo externamente, um pouco antes da mudança de uma estação para outra. Essa técnica pretende reforçar o sistema denominado Biao-Li (exterior-interior), ou seja, potencializar os fatores de resistência que facilitam a tarefa cotidiana de adaptação do ser humano a seu meio em constante mutação.
Essa tonificação deverá ser feita, segundo os mestres, 18 dias antes da virada de uma estação para outra. Por exemplo, para efetuar a grande tonificação preventiva para a Primavera, deveremos realizar a acupuntura nos dezoito últimos dias do Inverno. Desta forma preparamos o terreno para as mudanças ambientais que estão por vir.

Atuar no não manifesto
O clássico Tao Te Ching nos diz que “o universo é um vaso sagrado que não deve ser manipulado; quem o manipula o destrói, quem o segura, o perde”.
A constante interferência do homem sobre a Natureza, considerando a si mesmo separado ou superior e querendo adequar o universo ao seu desejo, sem levar em conta o curso natural das coisas, tem cada vez mais demonstrado suas conseqüências patológicas. É preciso resgatar nossa integração com o todo, e perceber que não podemos fugir do fluxo do Tao, o Caminho. É preciso respeitá-lo.
Assim, através das técnicas preventivas e do respeito aos fluxos da natureza poderemos atingir uma existência mais saudável e plena de significado. “É melhor atuar no ainda não manifesto e controlar o ainda não bagunçado, porque árvore de tronco grosso nasce de uma raiz capilar, torre de nove andares se levanta com terra acumulada e jornada de mil léguas começa embaixo dos pés” (Tao Te Ching).

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Medicina Chinesa enquanto Arte (ou sobre A Divina Iluminação ou o Insight Profundo)




Uma tradução livre, baseada no livro de:
KAPTCHUK, Ted. The web that has no weaver: undestanding chinese medicine. Capítulo 9: Chinese medicine as an art: or on the Penetrating Divine Ilumination. Pp 283 a 294.

Em princípio aprendemos como pedaços e peças têm sido colocados juntos para formar uma imagem refinada de Yin Yang em uma pessoa. Mas este método de colocar as pedras, montanhas, névoa e seixos da vida humana numa paisagem clínica coerente é a maneira que as tradições usam para treinar os médicos novatos. Por trás deste método há um outro processo – uma oposição Yin a um método Yang. Este processo tem a ver com a dialética entre o Todo e as Partes, um outro nível de Yin e Yang. Este paralelo oculto é a verdadeira arte da medicina chinesa, em oposição a seu conhecimento formal, e manifesta-se em múltiplos e contínuos níveis. Cada nível da dialética entre o Todo e as Partes progressivamente revela camadas mais profundas de uma antiga arte cuja maestria é um dos principais objetivos de um médico dedicado.

O primeiro nível da dialética do Todo e das Partes indica que a Medicina Chinesa nunca consiste em uma soma - juntar as Partes (isto é, queixas, sinais e sintomas) para formar um Todo. As partes nunca formam um Todo. De fato, o Todo é que determina o significado dos componentes; é o contexto que governa. Na paisagem clínica, a realidade das coisas apenas existe – e portanto somente se manifesta – numa totalidade, através da força da tendência (a dinâmica Yin Yang inerente) que une seus vários elementos num todo. Nenhum componente de um padrão pode ser isolado; nenhuma peça tem um significado ontológico independentemente de todo ambiente em que está inserida. É a configuração que dá sentido ao fragmento, e algumas vezes inclusive aspectos de múltiplos padrões podem emergir. Por exemplo, de fato qualquer padrão ou combinação pode resultar numa queixa de “olhos secos”. O significado energético de “olhos secos” vai ser em última instância definido pela paisagem.

O segundo nível da dialética do Todo e das Partes adotada pelo Leste Asiático tem a ver com o fato de que não há separação definitiva entre o Todo e as Partes. O Todo está impresso em cada pequena unidade da paisagem clínica. Um médico verdadeiramente competente será capaz de diagnosticar a partir de qualquer pequena parte da configuração humana. Nas mais sutis sombras de uma particular atmosfera emocional, ou pela língua, ou pelo jeito de caminhar, ou através do pulso, o mestre pode discernir um padrão, porque o Todo deixa sua marca característica em cada Parte.
A particularidade do segundo nível (as partes refletem o todo) permite um refinamento adicional. O domínio do nível dois pode se tornar bastante sofisticado ao ponto de fornecer de fato o retrato de uma pessoa. Um bom médico pode, por exemplo, ler a fórmula de acupuntura ou a fórmula herbal de um paciente, que foi administrada por outro médico, e facilmente descrever o paciente com uma incrível quantidade de detalhes.

O terceiro nível da dialética do Todo e das Partes é o mais profundo; as palavras são com freqüência inadequadas para descrever este processo. Os clássicos de medicina afirmam que dominá-lo leva o tempo de uma vida. A questão aqui é totalidade e imediatismo. Com relação a este, o nível um (que diz respeito a como o todo define as partes e permite um diagnóstico) e o nível dois (que diz respeito a como o todo pode ser identificado nas partes permitindo uma combinação única de ervas e pontos de acupuntura) são na verdade preliminares. O nível três é o refinamento supremo da arte médica. Ele implica a possibilidade de intimamente e intuitivamente apreender a paisagem em sua completude.

O terceiro nível desta arte tem relação com um íntimo, intuitivo e imediato encontro humano. Na tradição médica este nível de maestria é denominado Tong Sheng Ming: Penetrar na Divina Iluminação, ou no Insight Profundo.
O Nei Jing sublinha que este método é superior (é o “Espírito” da medicina) se comparado com as formas mais primitivas e lineares de examinar o paciente.
Bian Que diz que esta arte, ao que parece, consiste em discernir o padrão instantaneamente; intuitivamente captar seu movimento geral. Assim o médico, como um pintor, precisa estar inspirado, precisa possuir uma consciência particularmente sensível, de forma que consiga unir-se em espírito com a paisagem, abrindo-se e comunicando-se com ela, apreendendo numa pincelada como toda a cena funciona.
Se o nível um é verdadeiro (é necessário apreender o todo para compreender as partes), e se o nível dois é verdadeiro (o todo impregna cada parte), então o nível três deve ser igualmente verdadeiro – o todo é sempre uma presença que é imediatamente palpável no encontro entre médico e paciente. De fato, o Todo é a única coisa que está fundamentalmente presente.

Penetrar no Insight Profundo é o método “secreto” escondido por trás dos Quatro Métodos de Diagnóstico e da Diferenciação de Síndromes que facilmente escapa ao médico novato; ele pode apenas ser dominado pelos veteranos mais maduros. O Insight Profundo não pode ser ensinado, ele desenvolve-se juntamente com o médico enquanto seu ofício vai sendo honradamente feito. Depois de uma vida de prática, usando os níveis mais simples de conhecimento e arte em Medicina Chinesa, ele automaticamente e autonomamente revela ter estado sempre presente. A poética totalidade é real; tudo o mais era apenas detalhe. E para o praticante calejado, tudo o mais é preliminar. Todo o conhecimento e arte leva até aqui.

Enquanto o encontro do nível um permite um diagnóstico e o nível dois permite uma acurada formulação de ervas e acupuntura, é o nível três que permite a misteriosa transmutação que acontece no coração do encontro curativo. Penetrar no Insight Profundo (mesmo enquanto ele ainda está escondido da consciência do médico novato) é a verdadeira base do sucesso de qualquer tratamento e engajamento clínico. Penetrar o Insight Profundo não é meramente um conhecimento intuitivo, é um “tratamento secreto”, o que Wu Kun (1551 – 1620 d.C.) denominou “a medicina sem forma”.
Penetrar no Insight Profundo é o coração da dialética da cura – o ponto onde a receptividade (Yin) automaticamente e instantaneamente torna-se transformação (Yang). Este momento de Insight Profundo implica a ressonância do Qi entre o paciente e o médico. Intimidade e profundo senso de cumplicidade tornam-se o elixir de uma ampla cura. Avaliação e tratamento, paciente e médico, Yin e Yang fundem-se. A cura manifesta-se.

Penetrar no Insight Profundo é a mágica de alma encontrando alma, espírito refletindo espírito. Este reconhecimento instantâneo necessariamente dá início a um profundo tratamento. As respostas imediatas do médico no encontro clínico, as palavras, postura, gestos, questões, atenção, intenção, autenticidade, empatia, compaixão, fé e visão – afetam profundamente e ressoam no Espírito do outro ser humano. Penetrar este Insight Profundo é a definitiva base da cura, é a mais alta forma do Yin e Yang da cura.

“Fazer o paciente sentir-se melhor antes mesmo de ter tomado o remédio
é o método mais direto.”
(Xu Shu-Wei; 1080 – 1154 d.C.)

“Os Chineses usavam um método de cura que iniciava-se antes mesmo
de o remédio ter encostado na boca.”
(Sun Zhun)